O que enche o saco nas redes sociais?

Publicado em 01/02/2012

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O aumento do número de pessoas conectadas no Brasil ao longo dos últimos cinco anos transformou a internet em um gigantesco Coliseu. Com seus polegares virtuais nos teclados, o povão dita a condenação ou a absolvição de qualquer um, seja qual for o tema, num piscar de olhos. Do dia para a noite, todos viraram especialistas em geração de energia, aderiram às sociedades protetoras dos animais, passaram a ser profundos conhecedores da obra de Hannah Arendt e ferrenhos combatentes da polícia fascista, entre outras bravatas digitais.

Manter um perfil ativo no Facebook, no Twitter, no LinkedIn etc, tem sido missão das mais difíceis para pessoas que querem apenas trocar links bacanas umas com as outras, dividir as músicas que estão ouvindo ou ainda compartilhar experiências e ideias articuladas, além de alguns textos divertidos também, por que não?

Mas o que enche o (meu) saco? Bem, esta talvez seja a hora em que eu perco muitos dos “amigos” que estão na minha lista. Mas azar, vamos em frente. Se realmente eles forem embora é porque este post lhes serve bem e não eram tão amigos assim. Dito isso, vamos aos comportamentos virtuais que fazem meu estômago dar três voltas em torno do próprio eixo:

1) A patrulha pseudointelectual contra BBB, Mulheres Ricas e congêneres. É uma perda de tempo, uma tolice que não trará nenhum resultado prático a não ser a irritação dos que acompanham seus posts, sejam eles telespectadores desses reality shows ou não. Quem está verdadeiramente mergulhado em uma obra literária não tem tempo para aconselhar os outros a desligar a TV e ler um livro. E tampouco interesse. Seu mundo já está tão preenchido pela literatura que ele pouco se importa com o que você faz com o tempo livre na frente da TV. Portanto, quase sempre, quem aporrinha o saco com isso é quem apenas quer parecer cool. Sem ser cool de verdade.

2) Mensagens edificantes acompanhadas por fotos de bebês fofos, paisagens maravilhosas etc. Pessoal, um texto de auto-ajuda só ajuda mesmo uma pessoa: quem o escreve. Ela vai ganhar rios de dinheiro às custas de trouxas que se derretem por qualquer bobagem impressa num pedaço de papel. Se você lê uma mensagem dessas de Facebook e realmente se emociona, fica “tocado (a)”, eu sinto dizer, mas você está mal de família e de amigos.

3) A polarização política é outra coisa profundamente irritante na internet hoje em dia. Ninguém mais pode ter o bom senso de discordar do PT sem soar como um membro da Opus Dei ou discordar do PSDB sem parecer um maconheiro da USP. O esquerdopata do Facebook tem o cérebro cheirando a mofo, não sente um ar fresco desde os anos 60. Mas a internet também tem sido o meio de propagação de muito preconceito, ódio e ideias reacionárias, muitas delas ligadas ao espectro mais canhestro da direita. Como tudo hoje é mais rápido, as pessoas querem logo emitir opiniões, com receio de ficarem para trás no assunto. O pensamento claro, o raciocínio lógico e, sobretudo, o bom senso são prejudicados nessas horas.

4) As redes sociais viraram uma espécie de Weather Channel em tempo real. Chove e faz sol desde que o mundo é mundo. Se os seus amigos estão na mesma cidade que você, basta eles olharem pela janela e saberão como está o clima naquele dia, você não precisa postar que está um “calorão”, “um maçarico” ou “um frio da porra”. Se eles não estão na sua cidade, bem, que diferença faz?

5) Se você está na minha lista de amigos é porque alguma proximidade nós temos, algum tipo de afeto existe. Logo, me preocupo com a sua saúde. Mas não vai te curar inundar a nossa timeline com posts do tipo “ai, que gripe”, “acordei com dor no pescoço” ou “que enxaqueca maldita”. Tome um remédio e espere passar em silêncio.

6) Aquelas imagens com uma setinha apontando para o seu avatar, do tipo “Esta pessoa ama bife com batatas fritas”. Autoexplicativo. Não preciso dizer nada, não é?

7) Fotos menina-glamour. Essa é especial para as mulheres. Mesmo que você seja uma tremenda gata, tirar uma foto na frente do espelho ou, pior, no elevador “cazamigas”, só vai queimar o seu filme e cobri-la com o manto da vulgaridade. A menos que você esteja nua, é claro. Aí, baby, publique quantas fotos quiser.

8) Falando em fotos, marcar os seus amigos sem o consentimento deles é deselegante. Mas ainda pior do que isso é não marcar. Assim, eles ficam sabendo por último que há fotos horríveis deles circulando por aí em álbuns alheios. Por uma internet mais ética.

9) A superficialidade na discussão dos problemas das grandes cidades. Em geral, perceba que ela vem acompanhada da expressão “quero só ver na Copa”. Está mais ou menos ligada ao mal descrito no item 3. A pressa em emitir opiniões gera opiniões superficiais.

10) Check in igual, todos os dias, nos mesmos horários, no Foursquare. O Foursquare nasceu com uma boa premissa, ou seja, referendar locais com as dicas dos usuários utilizando o moderno sistema de localização dos aparelhos celulares. Mas quase ninguém escreve dica alguma. O programinha logo virou um inútil diário que apenas informa onde as pessoas estão. Quem se importa? Está cada vez mais popular, mas só deixará de ser assim o dia em que alguém acordar todo amarrado no porta-malas de um carro após postar onde estava.

11) Jesus mandou compartilhar o amor, não fotos de bichos e crianças doentes. Já repararam como tem aumentado o número de fotos grotescas que as pessoas publicam em seus murais? Bebês com “cancro cerebral” (só o nome já dá engulhos, imagine a foto), cachorros mal tratados e mortos, pessoas com as caras arrebentadas após sofrerem agressões de todos os tipos. Qual o objetivo disso tudo? Atribuir a si mesmo uma aura de filantropia ou de engajamento em uma “causa”? Uma crença verdadeira de que a opinião dos outros será formada após estes posts? Santa ingenuidade. Mas o direito de cada um postar a imagem que quiser continua sólido como uma rocha. E o nosso de cancelar assinaturas também.

12) Como minha mãe pensa que é, como meus amigos pensam que é, como eu penso que é e como é na realidade. Eu sei como é na realidade: uma tremenda idiotice.

13) Quem gostou, compartilha. Não! Alguém tem uma ideia tosca, transforma isso em uma montagem que pensa que é engraçada e publica na internet. Se você ajuda a disseminar a praga, merece 100o hectares de roça para capinar ao sol do meio-dia.

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